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domingo, 15 de julho de 2018

Índios: modelo da “conversão ecológica” postulada pelo Papa Francisco

Imagem de aborígenes primitivos projetada na sagrada basílica de São Pedro
Imagem de aborígenes primitivos projetada na sagrada basílica de São Pedro
José Antonio Ureta
Membro fundador da “Fundación Roma”,Chile;
membro da “Société Française pour la Défense
de la Tradition, Famille et Propriété”;
colaborador do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira
e autor do livro: “A mudança de paradigma
do Papa Francisco: continuidade ou ruptura
na missão da Igreja?
Relatório de cinco anos do seu pontificado”.









continuação do post anterior: Agenda “verde”, governança mundial e mística ambígua no novo paradigma do Papa Francisco


Excerto do livro: “A mudança de paradigma do Papa Francisco: continuidade ou ruptura na missão da Igreja? Relatório de cinco anos do seu pontificado” Veja o texto completo no site do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira



Os índios, modelo de respeito ecológico à natureza


O reverso da medalha das críticas ao desenvolvimento é a visão romântica que o Papa Francisco apresenta dos povos indígenas, os quais seriam modelos de sabedoria no seu relacionamento com a natureza: 
“Para eles, a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida”[1].

Invasão de fazenda em Mato Grosso do Sul.
Invasão de fazenda em Mato Grosso do Sul.
Em outra passagem, falando das cooperativas e do autoabastecimento, Francisco afirma que assim “é possível gerar uma maior responsabilidade, um forte sentido de comunidade, uma especial capacidade de solicitude e uma criatividade mais generosa, um amor apaixonado pela própria terra”, e acrescenta: “Estes valores têm um enraizamento muito profundo nas populações aborígenes”[2].

Durante sua viagem ao México, em sermão para os índios de Chiapas, após afirmar que vivemos “uma das maiores crises ambientais da história”, ele declarou: 

“Nisto, vós tendes muito a ensinar-nos, a ensinar à humanidade. Os vossos povos […] sabem relacionar-se harmoniosamente com a natureza, que respeitam como ‘fonte de alimento, casa comum e altar do compartilhar humano’”[3].

Evidentemente esses elogios não são alheios aos conflitos existentes em várias partes do mundo entre ditas populações e as autoridades nacionais a propósito de projetos hidroelétricos ou extrativos de minerais em terras indígenas. 

Curiosamente, apesar de reconhecer, no início da encíclica, que “o princípio da subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens e, consequentemente, o direito universal ao seu uso é uma ‘regra de ouro’ do comportamento social e o ‘primeiro princípio de toda a ordem ético-social’”[4], esse princípio de subordinação da propriedade privada ao bem comum perde a validade quando se trata de populações indígenas.

Índios, ONGs e teologia da liberação: agentes preferidos do governo mundial verde auspiciado por Francisco.
Índios, ONGs e teologia da liberação:
agentes preferidos do governo mundial verde auspiciado por Francisco.
O direito ao território ancestral passa a ser absoluto, ainda que essa santuarização seja prejudicial ao desenvolvimento da respectiva nação e dos próprios povos aborígenes.
Assim, durante uma audiência com os participantes no 3° Fórum dos povos indígenas, organizado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, o Papa Francisco afirmou que 

“deveria prevalecer sempre o direito ao consenso prévio e informado”, ao evocar o problema de “como reconciliar o direito ao desenvolvimento […] com a tutela das caraterísticas próprias dos indígenas e dos seus territórios”, especialmente nos casos de atividades econômicas “que podem interferir com as culturas indígenas e a sua relação ancestral com a terra”[5].

O Papa Francisco teve outros encontros com os povos aborígenes durante sua viagem de janeiro de 2018 ao Chile e ao Peru, tendo neste último país visitado a Amazônia.
Falando aos nativos dessa imensa região, após palavras de forte impacto retórico: 

“Nós, que não habitamos nestas terras, precisamos da vossa sabedoria e dos vossos conhecimentos para podermos penetrar — sem o destruir — no tesouro que encerra esta região, ouvindo ressoar as palavras do Senhor a Moisés: ‘Tira as tuas sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa’ (Ex 3, 5).

O pontífice reiterou sua preferência pelo estilo de vida indígena em confronto com aquele do Ocidente, no qual tudo seria condenável: 

“A verdade é que vós, com a vossa vida, sois um grito lançado à consciência de um estilo de vida que não consegue medir os custos do mesmo. Vós sois memória viva da missão que Deus nos confiou a todos: cuidar da Casa Comum”[6].

Lançamento da encíclica Laudato Si' só entusiasmou esquerdas
Lançamento da encíclica Laudato Si' só entusiasmou esquerdas
Surge no espírito a seguinte pergunta: — Esta contínua increpação ao modelo cultural e econômico do Ocidente, acompanhada de um simétrico elogio à sabedoria do estilo de vida aborígene, representa uma chave de leitura presumível das orientações do próximo Sínodo Especial sobre a Amazônia, convocado para 2019? 

A resposta deveria ser categoricamente afirmativa caso se leve em consideração a simpatia pela Teologia da Libertação de alguns dos 18 membros do Conselho pré-Sinodal que colaborará com a Secretaria Geral na preparação da Assembleia Especial, tais como o cardeal Cláudio Hummes e Dom Erwin Kräutler, prelado emérito de Xingu. 

Além dos preocupantes temas já explicitamente levantados por esses dois prelados sobre a ordenação sacerdotal de leigos casados (viri probati) e a simultânea revisão do celibato eclesiástico — o que inauguraria uma prática que a partir da Amazônia poderia dilatar-se por toda a Igreja.

Será preciso acompanhar com atenção se no referido Sínodo não se procurará também impor a todos os católicos a ideologia indigenista promovida por um setor pró-Teologia da Libertação do episcopado brasileiro, a qual já foi objeto quatro décadas atrás de uma documentada denúncia do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro Tribalismo indígena: Ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI[7].

A “governança mundial” para promover uma “comunhão universal” teilhardiana



Ela insiste em várias passagens sobre a necessidade de “conceber o planeta como pátria e a humanidade como povo que habita uma casa comum”[8], de “um acordo sobre os regimes de governança para toda a gama dos chamados bens comuns globais”[9], de “uma verdadeira Autoridade política mundial” dotada “de poder de sancionar”[10] e de “poder para punir os danos ambientais”[11].

Perfis pagãos projetados sobre São Pedro sublinham ecumenismo panteísta teilhardiano
Perfis pagãos projetados sobre São Pedro sublinham ecumenismo panteísta teilhardiano
Finalmente, é preciso destacar que, apesar de suas afirmações de que a defesa da natureza não requer “uma divinização da terra” nem “igualar todos os seres vivos e tirar ao ser humano aquele seu valor peculiar”[12], há passagens na encíclica que se colocam na linha do misticismo panteísta e evolucionista do Pe. Pierre Teilhard de Chardin, pessoalmente citado no documento (n° 83) [13].
O mundo é visto, de fato, como “sacramento de comunhão” no qual 

“o divino e o humano se encontram […] mesmo no último grão de poeira do nosso planeta”[14], pelo que “a meta do caminho do universo situa-se na plenitude de Deus, que já foi alcançada por Cristo ressuscitado, fulcro da maturação universal”[15], do que resulta que a “conversão ecológica” implica na consciência amorosa “de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal[16].
Cabe destacar que, para a encíclica, o homem é fruto dos “processos evolutivos”, cuja “novidade qualitativa” pressupõe “uma ação direta de Deus”. 

Mas o egrégio autor nunca fala da alma humana racional, a não ser de passagem, em uma nota (§141) que diz: “o amor vive-se sempre com corpo e alma”.

Apoio à agenda anticristã sob o pretexto de “desenvolvimento sustentável”


Pondo em prática os princípios da encíclica, o Papa Francisco, no seu discurso à Assembleia Geral das Nações Unidas de 25 de setembro de 2015, disse que levantava sua voz “em conjunto com a de todos aqueles que aspiram por soluções urgentes e eficazes”, para denunciar o “caráter dramático de toda esta situação de exclusão e desigualdade” que resulta do “abuso e a destruição do meio ambiente”. 

Pelo que “a adoção da ‘Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável’, durante a Cúpula Mundial que hoje mesmo começa, é um sinal importante de esperança”[17].

Esse apoio incondicional à “Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável” é tanto mais grave e surpreendente quanto a Missão Permanente da Santa Sé nas Nações Unidas tinha feito registrar na sessão da Assembleia Geral de 1° de Setembro de 2015, ou seja, no começo do mesmo mês, uma declaração oficial exprimindo suas reservas quanto ao uso, no texto da referida Agenda, dos conceitos “saúde sexual e reprodutiva” e “direitos reprodutivos” (os quais, para serem aceitáveis, deveriam excluir explicitamente o aborto ou produtos abortivos de sua definição), assim como dos termos “contracepção”, “planificação familiar” (que deveriam incluir unicamente métodos moralmente lícitos) e, finalmente, “gênero” (o qual, para ser válido, deveria ser baseado na identidade sexual biológica).

Políticos comemoram Acordo de Paris recomendado pelo Papa Francisco.
Christiana Figueres (secretária-executiva); Ban ki-moon (secretário geral da ONU);
Laurent Fabius (presidente da COP21) e François Hollande presidente socialista da França.
Igualmente, a Santa Sé viu-se obrigada a reiterar que a “responsabilidade primária” e os “direitos primários” dos pais na educação dos filhos inclui seu direito à liberdade religiosa[18].

Nada disso impediu o arcebispo Marcelo Sánchez Sorondo, chanceler das duas academias de Ciências, de declarar com ufania que “pela primeira vez o magistério do Papa é paralelo ao das Nações Unidas[19].

Mais ainda, a mensagem pontifícia de 1° de setembro de 2016, para celebrar o “Dia Mundial de Oração pelo cuidado da Criação”, deu diretrizes de comportamento individual e aprovou iniciativas públicas contestáveis.

No plano individual, após citar o Patriarca Bartolomeu, para quem “todos nós, na medida em que causamos pequenos danos ecológicos”, somos chamados a reconhecer “a nossa contribuição — pequena ou grande — para a desfiguração e destruição do ambiente”, o Papa Francisco convidou cada um a arrepender-se “do mal que estamos a fazer à nossa casa comum”, como “indivíduos, acostumados a estilos de vida induzidos quer por uma cultura equivocada do bem-estar quer por um ‘desejo desordenado de consumir mais do que realmente se tem necessidade’”, assim como a fazer “um propósito firme de mudar de vida”, o qual “deve traduzir-se em atitudes e comportamentos concretos mais respeitadores da criação, como, por exemplo, fazer uma utilização judiciosa do plástico e do papel, não desperdiçar água, comida e eletricidade, diferenciar o lixo, tratar com desvelo os outros seres vivos, usar os transportes públicos e partilhar o mesmo veículo com várias pessoas, etc.”

Para tornar esse compromisso mais cogente, o Papa sugere “um complemento aos dois elencos de sete obras de misericórdia [espirituais e corporais], acrescentando a cada um o cuidado da casa comum” [20].

No plano institucional, a “proteção da casa comum requer um consenso político crescente”, motivo pelo qual o pontífice manifesta a sua satisfação pelo fato de que “em setembro de 2015, as nações da terra adotaram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e, em dezembro de 2015, aprovaram o Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas, que se propõe o difícil mas fundamental objetivo de conter a subida da temperatura global”[21].

O apoio da Santa Sé à “Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável” é tanto mais desconcertante quanto ela já está sendo efetivada mediante a proliferação de iniciativas como a Innov8, da Organização Mundial da Saúde, que visa impor serviços de aborto, contracepção e educação sexual hedonista das crianças nos países menos desenvolvidos.

“Melodrama gnóstico e neopagão” na fachada da Basílica de São Pedro
Em nome da Sociedade pela Proteção da Criança Não-Nascida (SPUC), o pesquisador britânico Matthew McCusker declarou que “a aprovação pelo Papa Francisco e outros órgãos da Santa Sé [dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável] aumenta gravemente a ameaça para os mais inocentes e os mais vulneráveis entre nós”, pelo que “é absolutamente necessário que todos os Católicos resistam, da maneira mais apropriada à sua posição na Igreja, a esse alinhamento entre autoridades eclesiásticas e uma agenda internacional que visa a destruição de vidas inocentes e da própria estrutura da família”[22].

“Melodrama gnóstico e neopagão” na fachada da Basílica de São Pedro



A convergência do Papa Francisco com a agenda verde mais radical e pagã promovida pela ONU e por organizações internacionais ficou patente no dia 8 de dezembro de 2015, quando sobre a fachada da Basílica de São Pedro foi projetado o espetáculo Fiat lux: Illuminating Our Common Home, um verdadeiro “manifesto ecologista” financiado pelo World Bank Group com a intenção de traduzir em imagens a encíclica Laudato Sì.  

Ele projetava leões, tigres e leopardos lá mesmo onde os primeiros cristãos foram martirizados, e fazia pairar uma imensa coruja enquanto monges budistas em marcha pareciam indicar uma via de salvação alternativa ao cristianismo[23].

O jornalista Antonio Socci qualificou o espetáculo de “melodrama gnóstico e neopagão que tinha uma mensagem ideológica anticristã bem precisa”, observando que “em São Pedro, na festa da Imaculada Conceição, em lugar da celebração da Mãe de Deus preferiu-se a celebração da Mãe Terra, para fazer propaganda da ideologia dominante, essa ‘religião climática e ecologista’, neopagã e neomalthusiana que é sustentada pelos grandes poderes mundiais”[24].

Excerto do livro: “A mudança de paradigma do Papa Francisco: continuidade ou ruptura na missão da Igreja? Relatório de cinco anos do seu pontificado” Veja o texto completo no site do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira



NOTAS

[1] Laudato Sì n° 146
[2] Ibid. n° 179.
[4] Laudato Sì n° 93.
[8] Laudato Sì n° 164.
[9] Ibid. n° 174.
[10] Ibid. n° 175, citando Bento XVI e João XXIII.
[11] Ibid. n° 214.
[12] Ibid. n° 90.
[13] Ver Arnaldo X. da Silveira, “Notas sobre Laudato Sì” in http://www.unavox.it/ArtDiversi/DIV1294_Da-Silveira_Note_su_Laudato-si.html Em 18 de novembro de 2017, a assembleia plenária do Conselho Pontifício para a Cultura aprovou uma moção para pedir ao Papa Francisco que remova o Monitum do Santo Ofício de 30 de junho de 1962 declarando que seus textos de caráter teológico e filosófico continham graves erros para a doutrina católica (http://www.disf.org/teilhard-de-chardin-petizione-monitum-consiglio-cultura).
[14] Laudato Sì n° 9, citando o Patriarca Bartolomeu, “Global Responsibility and Ecological Sustainability: Closing Remarks”, I Cúpula de Halki, Istambul.
[15] Ibid. n° 83.
[16] Ibid. n° 220.
[21] Ibid.
[22] Ver “The impact of the United Nations’ Sustainable Development Goals on children and the family, and their endorsement by the Holy See” in
[23] Ver Roberto de Mattei, “San Pietro: una basilica oltraggiata” in https://www.corrispondenzaromana.it/san-pietro-una-basilica-oltraggiata/

domingo, 8 de julho de 2018

Agenda “verde”, governança mundial e mística ambígua no novo paradigma do Papa Francisco

O Papa Francisco privilegia indígenas na Jornada Mundial de Juventude do Rio
José Antonio Ureta
Membro fundador da “Fundación Roma”,Chile;
membro da “Société Française pour la Défense
de la Tradition, Famille et Propriété”;
colaborador do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira
e autor do livro: “A mudança de paradigma
do Papa Francisco: continuidade ou ruptura
na missão da Igreja?
Relatório de cinco anos do seu pontificado”.








Segundo a doutrina social da Igreja reiterada muitas vezes —, há questões sobre as quais os católicos são obrigados a ter uma posição homogênea, como, por exemplo, em matéria de aborto, divórcio, estrutura natural do matrimônio. 

Outros temas, pelo contrário, são deixados ao julgamento da consciência bem formada dos fiéis. 

Abraçando a ideologia ambientalista, o Papa Francisco, porém, estabelece um novo paradigma.

Excerto do livro: “A mudança de paradigma do Papa Francisco: continuidade ou ruptura na missão da Igreja? Relatório de cinco anos do seu pontificado” Veja o texto completo no site do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira


A encíclica Laudato Sì assume as teorias ecológicas catastrofistas — apesar de não existir um fundamento científico definitivo em apoio delas — e convida os fiéis a se empenharem prioritariamente nessas causas, em lugar daquelas nas quais eles devem falar com uma só voz, como a defesa da vida. 
 
A Santa Sé vem organizando nos últimos anos congressos internacionais, oferecendo uma tribuna a expositores que sempre promoveram a redução da população mundial (mediante a contracepção e o aborto) para “poupar” o planeta Terra. 

E não apenas isso. Como afirmou uma alta figura do Vaticano, pela primeira vez na história a agenda do Vaticano coincide com a das Nações Unidas, a qual se opõe em muitos pontos à verdade católica.

Em julho de 2014 o Papa Francisco caracterizou a preocupação pelo meio ambiente como “um dos maiores desafios de nossa época”, dando-lhe uma nota teológica: é preciso “converter-se a um desenvolvimento que saiba respeitar a criação [...] Esse é o nosso pecado: explorar a terra e não deixar que ela nos dê aquilo que ela tem dentro”[1].

Lançamento de encíclica ecológica de mãos dadas com a ONU


Lançamento da encíclica Laudato Si', Vaticano, 18 de junho de 2015
Lançamento da encíclica Laudato Si', Vaticano, 18 de junho de 2015
Poucos meses antes de três reuniões cruciais da ONU sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, o Papa Francisco publicou a encíclica Laudato Sì[2], fazendo de um lado ouvidos moucos às recomendações de um grupo consistente de teólogos, cientistas e economistas[3] e, de outro lado, pedindo a colaboração de intelectuais controvertidos como o ex-frade Leonardo Boff[4], adepto da Teologia da Libertação, ou Hans Schellnhuber[5], um membro do fracassado Club de Roma, simpático à “teoria Gaia”[6], promotor de uma Constituição da Terra, de um Conselho Global eleito pela população mundial e de uma Corte Planetária com jurisdição universal[7], além de defensor da ideia de que a população humana da terra não deveria passar de 1 bilhão. 

Em 1970 Schellnhuber previu que o fim dos recursos renováveis se daria em 1990 (!). 

Suas propostas são tão radicais, que o insuspeito New York Times o descreveu como “um cientista conhecido por sua posição agressiva em políticas relativas ao clima”[8].

Como preparação ao lançamento da encíclica, o Vaticano sediou uma jornada consagrada às mudanças climáticas, com a finalidade de “chegar a um consenso sobre o fato de que os valores do desenvolvimento sustentável são coerentes com os valores das principais tradições religiosas” [9]

O colóquio teve como expositores, entre outros, o então Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, o ex-presidente esquerdista do Equador, Rafael Correa, e o já citado economista Jeffrey Sachs, favorável ao controle da população através do aborto.


Visão apocalíptica fundada em “dogmas” sem base científica


Hans Schellnhuber veicula ideias de reduzir a humanidade até em 80%
Na referida encíclica, extrapolando sua função de guardião da fé e da moral, o Papa Francisco tomou abertamente partido em um debate altamente técnico, e propôs soluções que amplos setores do mundo científico, econômico e político consideram perniciosas para a humanidade, em particular para as regiões e camadas mais pobres da população do planeta. 

E isso apesar de na exortação Evangelii Gaudium ele ter escrito que “os crentes não podem pretender que uma opinião científica que lhes agrada — e que nem sequer foi suficientemente comprovada — adquira o peso de um dogma de fé”[10], e de reconhecer, na própria Laudato Sì, que “há discussões sobre problemas relativos ao meio ambiente, onde é difícil chegar a um consenso”, pelo que convida “a um debate honesto e transparente” [11].

Em que pese o anteriormente dito, o Papa afirma que “há um consenso científico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático”, que “numerosos estudos científicos indicam que a maior parte do aquecimento global das últimas décadas é devida à alta concentração de gases com efeito de estufa [...] emitidos sobretudo por causa da atividade humana”, e que isso “é particularmente agravado pelo modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis”[12].

Com base nessas asserções, sem apoio em qualquer fonte, nem sequer em pé de página[13], a encíclica fornece uma visão apocalíptica dessas ameaças ao meio ambiente[14]

“O ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida atual — por ser insustentável — só pode desembocar em catástrofes, como aliás já está acontecendo periodicamente em várias regiões”[15].

Promoção de um estilo de vida miserabilista que prejudicará sobretudo os pobres


Para o Papa Francisco, “as raízes mais profundas dos desequilíbrios atuais” têm a ver com “a orientação, os fins, o sentido e o contexto social do crescimento tecnológico e econômico”[16], que procura um aumento indefinido da riqueza. 

Seria preciso, pelo contrário, uma “nova síntese”[17], uma “mudança radical”[18] e uma “corajosa revolução cultural”[19]

Sem querer “o regresso à Idade da Pedra”[20], ele sustenta, porém, que a “humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam”[21].

Essa nova cultura ecológica “deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático”[22]

Como exemplo de “hábitos nocivos de consumo” perniciosos para o meio ambiente, o Papa cita “o crescente aumento do uso e intensidade dos condicionadores de ar”[23], esquecendo que eles não são um luxo frívolo (se tivessem ar condicionado em casa, 14 mil anciãos provavelmente não teriam morrido na onda de calor que assolou o sul da França em 2003), mas uma necessidade para as condições de vida e de trabalho de milhões de pessoas em regiões tropicais.

O Papa Francisco parece esquecer que por volta de 1815 havia na Terra cerca de 1 bilhão de habitantes (a cifra ideal de Hans Schellnhuber), mas que nessa época a esperança de vida era de apenas 30 anos, e o ingresso per capita, em moeda constante, por volta de US$ 100, ou seja, que em nível mundial, por causa do progresso industrial, a esperança de vida mais do que dobrou (hoje é de 71 anos) e o ingresso multiplicou-se mais de cem vezes (hoje é US$ 12,000)[24].

Segundo o Papa Francisco, a “abordagem ecológica” é indispensável para “ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres”, principais vítimas do desenvolvimento, uma vez que eles são “maioria no planeta, milhares de milhões de pessoas”[25]

De um lado, ele também parece esquecer que a redução da extrema pobreza tem sido um grande sucesso — de 1990 a 2010 ela foi dividida pela metade, segundo o insuspeito relatório da ONU sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, do ano 2014 — e, de outro lado, que se as propostas da encíclica fossem aplicadas, as maiores vítimas seriam os pobres da periferia, ou seja, os residentes nas regiões menos desenvolvidas do mundo, condenados a permanecer no subdesenvolvimento.

É igualmente demagógico afirmar, no que se refere ao “clamor da terra”, que deixaremos às gerações futuras somente “ruínas, desertos e lixo”[26]

Como bem apontou o colunista George Will, basta comparar os níveis de poluição em Londres nos romances de Charles Dickens ou olhar para a notável transformação do rio Tâmisa nos últimos 50 anos, para ver um eloquente desmentido[27]

E a realidade no que concerne ao lixo não é tão ruim, porque muito do “descarte” é reciclado, sendo a indústria da reciclagem uma fonte suplementar de muitos empregos e de riqueza[28].

Excerto do livro: “A mudança de paradigma do Papa Francisco: continuidade ou ruptura na missão da Igreja? Relatório de cinco anos do seu pontificado” Veja o texto completo no site do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira




NOTAS
[2] O então Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, fez ele a ligação entre a encíclica e as iniciativas da ONU, dizendo num colóquio organizado pelo Vaticano: “Neste ano, com a próxima encíclica, a Cúpula sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e um Acordo global de mudança climática, temos uma oportunidade sem precedentes para articular — e criar — um futuro mais sustentável e uma vida com dignidade para todos” (https://www.un.org/sg/en/content/sg/statement/2015-04-28/secretary-generals-remarks-workshop-moral-dimensions-climate-change)
[4] “O Pontífice leu seus livros? ‘Mais do que isso. Pediu-me material para a Laudato Sì. Dei-lhe conselhos e enviei-lhe coisas que escrevi… De maneira que o Papa me disse diretamente: ‒ Boff, não me mande suas cartas diretamente. ‒ Por que não? Disse-me: ‒ Se não os subsecretários as interceptarão e não as receberei. É melhor enviar as coisas ao embaixador argentino junto à Santa Sé, com quem tenho um bom contato, e chegarão seguras em minhas mãos. O embaixador é um velho amigo do Pontífice. E depois, no dia prévio à publicação da encíclica, o Papa mandou chamar-me para agradecer-me pela ajuda’” (cf. http://www.ksta.de/kultur/leonardo-boff-im-interview--papst-franziskus-ist-einer-von-uns--25372660).
[5] Detalhes sobre suas posições e sua contribuição na redação da Laudato Sì em http://voiceofthefamily.com/professor-schellnhuber-climate-science-and-the-population-problem/
[10] Evangelii gaudium n° 243.
[12] Laudato Sì n° 23.
[13] O cardeal George Pell declarou a esse respeito: “A Igreja não tem nenhum mandato do Senhor para pronunciar-se em matérias científicas” (http://www.ft.com/cms/s/0/7f429c28-2bc6-11e5-acfb-cbd2e1c81cca.html )
[14] Por exemplo, apesar de o CO2 ser parte natural da atmosfera e necessário ao crescimento de qualquer vegetal, incluído o fito plâncton marinho, e à libertação de oxigênio na atmosfera, o Papa afirma que “a poluição (sic!) produzida pelo dióxido de carbono aumenta a acidez dos oceanos e compromete a cadeia alimentar marinha” (n° 24).
[15] Laudato Sì, n° 161.
[16] Ibid. n° 109.
[17] Ibid. n° 112.
[18] Ibid. n° 171.
[19] Ibid. n° 114.
[20] Ibid. n° 114.
[21] Ibid. n° 23.
[22] Ibid. n° 111.
[23] Ibid. n° 55.
[24] V. Steven W. Mosher, “Do the Pope and I live on the same planet?”, http://nypost.com/2015/07/05/do-the-pope-and-i-live-on-the-same-planet/
[25] Laudato Sì n° 49.
[26] Ibid. n° 161.
[28] Ver Fr James V. Schall sj, “Concerning the ‘Ecological’ Path to Salvation”  in http://www.catholicworldreport.com/2015/06/21/concerning-the-ecological-path-to-salvation/

Continua no próximo post: Os índios, modelo para a humanidade na agenda ecológica do Papa Francisco