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domingo, 30 de abril de 2017

Amazônia lar de uma grande civilização perdida

Um dos geoglifos visualizados por via aérea graças ao desmatamento
Um dos geoglifos visualizados por via aérea graças ao desmatamento
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Sabia-se, mas não era politicamente correto lembrar, que “as florestas da Amazônia foram moldadas pela ação humana ao longo de milhares de anos, num processo que transformou boa parte da mata em gigantescos ‘pomares’, repletos de espécies domesticadas de árvores.

“O manejo habilidoso dessas plantas pelos antigos habitantes da região acabaria criando deleites gastronômicos que hoje chegam ao mundo todo, como o cacau e a castanha-do-pará.

“Esses são os exemplos mais famosos, mas a lista completa é bem mais extensa: 85 espécies de árvores foram domesticadas em algum grau na floresta, calculam os autores de um estudo internacional que acaba de ser publicado na revista especializada ‘Science’”, escreveu a “Folha de S.Paulo. 

“Em alguns lugares da bacia do Amazonas – prossegue o matutino paulista – as espécies selecionadas e alteradas pela atividade humana chegam a ser as mais comuns da mata, apesar da gigantesca diversidade natural de vegetais da região.



“’A gente está falando de sistemas sofisticados de produção de alimentos, mas que são muito diferentes dos de hoje porque a diversidade em si era algo importante.

‘Você não tem o manejo de uma única espécie agrícola, mas de várias, mantendo a floresta em pé’, explica a bióloga Carolina Levis, uma das autoras da pesquisa, que está concluindo seu doutorado no Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e na Universidade de Wageningen (Holanda).

“No estudo, Levis e dezenas de outros colegas do Brasil e do exterior conseguiram traçar o mais completo mapa da presença dessas plantas na região.

“O ponto de partida para essa tarefa foram os dados da chamada ATDN (sigla inglesa de Rede de Diversidade de Árvores da Amazônia), que reúne informações sobre a distribuição de quase 5.000 espécies arbóreas amazônicas.

Infográfico elaborado pela 'Folha de S.Paulo' com a parte da mata
transformada em grandes pomares pela ação humana
“Usando esses dados, um dos colaboradores da nova pesquisa, o holandês Hans Ter Steege, já tinha mostrado que, apesar dessa imensa variedade de espécies, a Amazônia abriga algumas árvores ‘campeãs’, conhecidas como hiperdominantes.

“São 227 espécies que, somadas, são muito mais comuns que a média das demais plantas, correspondendo a uns 50% de todas as árvores amazônicas.

“Ocorre que, das 85 árvores domesticadas, 20 espécies fazem parte dessa lista das hiperdominantes – cinco vezes mais do que o esperado, quando se considera o número total de espécies arbóreas da região.



“Outro detalhe importante é que essas plantas domesticadas hiperdominantes são muito comuns na Amazônia: ao menos algumas delas estão presentes em 70% da região, enquanto as outras espécies hiperdominantes (as não domesticadas) só ocorrem em 47% da bacia.

“Isso sugere que a ação humana as espalhou Amazônia afora, uma vez que estudos genéticos mostram que muitas dessas plantas domesticadas hoje florescem em lugares muito distantes de seu ambiente original – como é o caso do próprio cacaueiro, nativo do noroeste amazônico, mas hoje mais comum no sul da região.

Estruturas civilizadas no Acre
Estruturas civilizadas no Acre
“E, de fato, na maioria das áreas, a concentração de espécies moldadas pelo uso humano aumenta nas proximidades de sítios arqueológicos e dos rios – ou seja, áreas que comprovadamente foram ocupadas por pessoas no passado ou que serviam (e ainda servem) como as principais estradas para quem circulava pela mata.

“Para onde os antigos indígenas iam, as plantas iam junto – e esse processo foi fazendo com que elas se tornassem cada vez mais comuns, alterando a composição natural de espécies da floresta para que ela se tornasse cada vez mais útil para membros da nossa espécie.”

Veja mais em: Arqueólogos e linguistas revelam civilização urbana no Alto Xingu, Amazônia

Charles Clement, biólogo do Inpa e coautor do novo estudo, explica:

Os índios também consumiam uma grande variedade de cervejas, incluindo as feitas com o fruto da pupunha, que pode ser selecionado para ser muito rico em amido, o que favorece a fermentação”.

“O arqueólogo Eduardo Góes Neves, da USP, que também assina a pesquisa, calcula que essa grande processo de ‘engenharia florestal’ amazônica começou há pelo menos 6.000 anos, mas pode ter se intensificado de uns 2.500 anos para cá.

“É quando a região fica repleta de sítios com a chamada terra preta –um solo muito fértil produzido pela ação humana, em parte graças à queima controlada de restos de vegetais.

“Para o arqueólogo, o estudo mostra que, além de serem um patrimônio natural, as florestas da região também são um patrimônio cultural, por sua ligação estreita com a intervenção humana”, concluiu.

Desse atualíssimo trabalho científico tira-se uma conclusão de interesse para julgar a subversão comuno-tribalista promovida no Brasil por organismos como o CIMI: o índio “selvagem” como é apresentado pela propaganda comuno-indigenista não vive no estado “ideal” “primigênio” do homem em contato com a natureza.

Reconstituição artística de uma dessas cidades amazônicas em Llanos de Mojos, Bolívia.
Reconstituição artística de uma dessas cidades amazônicas em Llanos de Mojos, Bolívia.
Ele é um resto decadente de antigas estirpes que modelaram a selva amazônica com uma civilização própria.

E a “mata selvagem” não é a originária, mas sim uma consequência de séculos de trabalho civilizatório de seus antigos moradores e que agora está abandonada a si própria.

Nada de mais justo e razoável que os brasileiros de hoje penetrem nessa mata entregue a sim própria e voltem a fazê-la produzir ordenadamente.

O jornal espanhol “El Mundo”, cegado pela propaganda indigenista de ONGs internacionais e até mais remotamente pelos devaneios fantasiosos de Rousseau sobre o “bon sauvage”, publicou pasmo extensa matéria sob o titulo “La selva amazónica, no tan virgen como se creía”.

O trabalho publicado na conceituada revista Science pegou o jornal de surpresa.

Esse estudo desafia a visão que tivemos – a ainda temos – muitos dos ecólogos sobre essa enorme área”, reconheceu Hans ter Steege, cientista do Naturalis Biodiversity Center e coordenador da Amazon Tree Diversity Network.

O mesmo jornal espanhol já tinha dedicado longa matéria às figuras geométricas perfeitas inscritas na superfície da terra amazônica e agora visíveis graças ao desmatamento.

Essas figuras – retângulos, hexágonos, etc. – foram feitas há 3.000 anos pelos antigos habitantes da Amazônia. Há mais de 300 delas no Acre, junto à fronteira com o Peru e a Bolívia.

Trata-se de cuidados canais ou fossas de quatro metros de profundidade por 12 de largura formando desenhos em relevo com diversas formas das mais simples às mais complexas.

A descoberta é atribuída ao professor Ondemar Dias, do Instituto Brasileiro de Arqueologia de Rio de Janeiro, mas o silêncio oficial e midiático desceu sobre ela.

Até que o geólogo e paleontólogo da Universidade Federal de Acre (UFAC) ,Alceu Ranzi, discípulo de Ondemar, viajando em voo comercial entre Porto Velho e Rio Branco, foi percebendo que à medida em que o desmatamento avançava, novas figuras geométricas apareciam no chão.

Só una civilização avançada poderia ter escavado formas geométricas tão perfeitas. Desde 2007, o satélite taiwanês Formosat-2 permitiu identificar numa área de 25.000 quilômetros quadrados um grande número delas, e calcula-se que foram localizados apenas 20% do total.

O nome técnico é geoglifos, estando os do Acre aguardando para serem catalogados pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade.

Os geoglifos estão conectados por caminhos, alguns deles protegidos.

“As crônicas dos primeiros conquistadores – de Orellana a Schnidel, por exemplo – descrevem aldeias defendidas por altas paliçadas de madeira”, garantiu o arqueólogo Marcos Vinicius das Neves, uno dos pioneiros na investigação.

Geoglifos no Alto Xingu
Geoglifos no Alto Xingu
Estudos finlandeses falam de praças tribais no centro dos geoglifos para realizar cerimônias, encontros especiais, cultos religiosos ou debates sobre a aldeia, como nas antigas cidades gregas.

Os geoglifos amazônicos foram comparados com as famosas figuras de Nazca no Peru, descobertas em 1927 com o desenvolvimento da aviação comercial.

Pelo número e tamanho das estruturas, deduz-se que os povoadores eram sedentários e organizados, trabalhando em cooperação. Em alguma dessas cidades a população girou por volta de 70.000 pessoas. Tamanho de muitas cidades brasileiras modernas.

Foram resgatados alguns escassos artefatos associados de cerâmica, que o teste do Carbono 14 diz serem de por volta do ano 1.294 d.C. Mas os trabalhos nesta matéria e as polêmicas científicas são incipientes.

“El Mundo” conclui que “a Amazônia foi lar de grandes povos” e cenário de “uma grande civilização perdida”, todo o contrário do que pretendem fazer nos crer os ativistas do ecologismo radical, para os quais o pobre indígena mais decadente é o “autêntico” homem da Amazônia.

Segundo Martti Pärssinen, diretor do Instituto Iberoamericano da Finlândia, a zona do Acre foi um ponto de encontro cosmopolita entre a Amazônia oriental e as Cordilheiras dos Andes.

Um cosmopolitismo ou globalismo incipiente que os fanáticos ambientalistas trabalhariam para revolucionar e demolir.

Engraçado. Eles se voltariam contra essas civilizações em nome de um pretenso “autêntico” ideal tribal e da natureza impoluta, forjado nos laboratórios ideológicos das esquerdas europeias ou norte-americanas.


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