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domingo, 23 de julho de 2017

Noticiário enviesado sobre um iceberg inusual, mas comum

A rachadura na geleira Larsen C foi monitorada o tempo todo. Fenômeno grande mas comum não trazia perigo algum para homens ou mares.
A rachadura na geleira Larsen C foi monitorada o tempo todo.
Fenômeno grande mas comum não trazia perigo algum para homens ou mares.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Todos os anos blocos de gelo desprendem-se das calotas árticas e antárticas, gerando uma galáxia flutuante de icebergs.

Alguns desses ficaram famosos, como o que afundou tragicamente o Titanic. Outros chamam a atenção pelo seu tamanho, e obviamente são mais raros que os menores.

Foi o caso do iceberg de 5.800 km2 que se destacou da banquisa Larsen C, da Antártica Ocidental. Provavelmente será batizado “A68” e assim será conhecido em sua efêmera existência, escreveu o “Clarín”.

Neste momento ele está sendo levado pelas correntezas para o norte, rumo ao destino inevitável de todos os icebergs: ir se fracionando e, em dois ou três anos, derreter-se inteiramente.

Por ser o maior dos últimos 30 anos, ele foi acompanhado por especialistas da Universidade galesa de Swansea e de outras missões científicas que trabalham no continente branco. No passado foram detectados outros ainda maiores.

O Instituto Alfred Wegener de oceanografia e investigação polar de Bremerhaven, na Alemanha, informou que o iceberg estava sendo acompanhado desde que uma rachadura de 175 km de extensão e uma largura de até 50 quilômetros na banquisa Larsen C era já há tempo perceptível.

Em qualquer hipótese, o “A68” não traz perigo algum para as pessoas, explicou o Instituto alemão.



Sua espessura atinge até 350 metros, mas ao derreter-se não produzirá efeito algum no nível dos oceanos, simplesmente porque já boiava na água antes de se desprender da banquisa. Aliás, é a situação da imensa parte da banquisa da qual ele é apenas um fragmento descolado.

A fissura havia aparecido há anos e se alargou nos últimos meses em que o futuro iceberg esteve unido à Antártica por cinco quilômetros.

Acampamento de cientistas mudava de local metodicamente. Foto Knut Christianson
Acampamento de cientistas mudava de local metodicamente. Foto Knut Christianson
A formação dos icebergs, grandes ou pequenos, é um processo natural, conhecido há milênios pelos homens, ao menos desde que eles navegam nos mares frios.

Os cientistas estudam o fenômeno de sua criação, ruptura e derretimento, inclusive para auxiliar a navegação comercial.

O fato novo que se deu com o “A68” foi o banzé intimidador montado pela imprensa voltada ao sensacionalismo ambientalista.

A revista “Rolling Stone” deu um exemplo através de extensa matéria com manchete apocalíptica de fazer rir: “Juízo Final no Polo Sul”.

Para encher o artigo de terror, entulhou toda espécie de dados, falsos ou não, impressionantes para quem não está habituado às condições extremas do contexto da Antártica.

Só 28 seres humanos tinham pisado na geleira, .informou como algo espantoso Mas é um fato muito normal.

O glaciólogo Knut Christianson, da Universidade de Washington, teve de atravessar com seus colaboradores um “prado” (sic!) de neve e gelo para chegar até a fissura. Não seria compreensível que tivessem de atravessar outra coisa senão gelo.

Eles fizeram testes científicos com “alguns nerds do gelo mapeando a topografia oculta do planeta”, delineando o mapa do “futuro desastre global”. Bom para um filme da NETFLIX ou mais um conto eletrizante de tribo urbana.

Como que esquentada pelo rock, a revista deu de barato que a Terra aquece desastrosa e indefectivelmente.

Por isso, a respeito do “A68”, escreve que só interessa responder a “uma das perguntas mais importantes de nossa era”: o afogamento da metade da população mundial que vive a 80 quilômetros de alguma costa.

O desaparecimento de bilhões de dólares das propriedades próximas das praias e nas concentradas cidades de pouca altura como Miami e Nova York é mais um espectro assustador na fértil pluma do jornalista responsável.

Cenas de cinema, fotomontagens velhas e novas serviram para induzir o pânico
Cenas de cinema, fotomontagens velhas e novas serviram para induzir o pânico
E o terror cinematográfico não para aí. O autor lembra que uma ascensão lenta do nível das águas ao longo de décadas permitiria adaptações. Mas não seria possível se o crescimento for abrupto.

Pura banalidade. Mas a perspectiva de uma ascensão abrupta dos níveis dos oceanos é coisa do cinema. É materialmente impossível, excetuada alguma intervenção divina que não está em foco.

Para apavorar mais ainda o leitor adito ao rock e talvez à droga, sempre desconectado da natureza, “Rolling Stone” cita Ian Howat, glaciólogo da Universidade Ohio State: “Se houver uma catástrofe climática, provavelmente começará ali”.

O problema é que, para que houvesse tal “catástrofe climática”, deveria haver quantidades de gelo que não existem!

E lá prossegue a alucinada acumulação de hipóteses apocalípticas: um “castelo de baralho” de gelo que colapsa; a Antártida Ocidental toda que se perde; em Nova York e Boston as águas sobem até quatro metros por efeito da gravidade terrestre (sic!); pior que o furacão Sandy que alagou Nova York; o sul de Florida vira parque aquático; os aeroportos de Oakland e San Francisco ficarão submersos; a cidade de Sacramento alagada no meio da Califórnia; o Oceano Pacífico fazendo transbordar os grandes rios; Galveston, no Texas, Norfolk, na Virginia e Nova Orleans tragadas, enquanto o mar se deteria a apenas a dois metros da Casa Branca.

Esse é o panorama profetizado, mas só para os EUA. Nem falar de “grandes porções” de Xanghai, Bangkok, Jakarta, Lagos e Londres submersas etc., etc.

A imaginação apavoradora não conheceu limites e anunciou um possível derretimento súbito da Antártica
A imaginação apavoradora não conheceu limites
e anunciou um possível derretimento súbito da Antártica
Glaciólogos que “entendem disso como ninguém”; o ex-secretário de Estado John Kerry que pôs o pé num arquipélago da Noruega; as cordilheiras sob o gelo da Antártica; os relatórios mirabolantes do IPCC; o sumiço dos polos; John Mercer, “um excêntrico glaciólogo da Universidade de Ohio” que trabalhava nu no campo e intuiu que o CO2 derreteria a Antártica; Hans Weertman, o cientista de materiais da Universidade de Northwestern que elaborou a teoria do derretimento súbito e do aumento catastrófico dos níveis do mar.

Tudo e todos caem num mesmo e imenso salpicão tendencioso. A conclusão preconcebida é que o desprendimento do “A68” foi “um berro histérico pelo fim do mundo”.

A história é boa para adeptos de exageros, mas não para pessoas inteligentes e/ou sensatas.

Porém, de modo mais discreto e subtil, ela veio sendo passada pela mídia dita “séria”, que se diz contrária às “fake news”. É claro que não quando estão em jogo suas propensões anticivilização ocidental, porque então a “fake news”, como no caso do “A68”, é uma exigência para a salvação do planeta.

Nesse tom sutil e insidioso o jornal “Libération”, por exemplo, nascido nas barricadas anarquistas de Maio de 68 em Paris, noticiou o desprendimento do grande, mas inócuo “A68”.

“Libération” não incorreu nos exageros desqualificadores de “Rolling Stone”.

Mas noticiou com viés assustador o histórico do imenso iceberg, que interessa tranquilamente e muito aos cientistas sérios que o analisam com bom método e bom senso.


2 comentários:

  1. O correto não seria banquisas?

    "Todos os anos blocos de gelo desprendem-se das BANQUISAS árticas e antárticas?

    Ou só depois de se desprender é que ele pode ser chamado de banquisa?

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    Respostas
    1. Correto! Já introduzimos as modificações.
      Atenciosamente

      Excluir

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